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Texto do Mácleim

     

Volto a postar um texto depois de algum tempo. Estive viajando. Mácleim aqui fala do tempo. Algo que me tem faltado. Grande abraço.


 

Ao tempo: em tempo

 

 Se, “Os olhos não servem para ver as almas” (João Inácio Padilha), “A beleza não está no que vemos, e sim no que sentimos” (Mário Quintana)

 

                                                                                         

Óxido

 

        A princípio era monólito. Estático, como se só Van Gogh pudesse propor um único girassol de pedra arrebatando a tela. Sem movimento, sem luz, sem vida. Tudo parecia atípico e insólito à cena. Até o tempo era apático, inerte. À espera dele mesmo, que não passava. O tempo contrariava sua essência. Era a metáfora de um relógio travado, com os ponteiros sobrepostos, onde o ponteiro dos minutos cabulava as horas. Fixas em si, horas ardis paralisam, aprisionam tudo, todos.

         Vê-lo, era claustrofóbico. Como se uma camisa-de-força se apoderasse do espectador, imobilizando-o pela terceira lei de Newton. Tamanha rigidez era mais que cadavérica. Não havia vestígios da maleabilidade implícita aos 220 tipos de tecido humano. Pele, músculos, sangue, tudo era óxido. Mecanismos enferrujados, intransponíveis a qualquer força motriz...

          Até uma mosca pousar em seu nariz.   

 

                                                          X XX

              

Fluido

 

         Tudo o que desejavam era chegar ao castelo medieval, em Carcassonne. Era primavera e os campos floridos passavam alegres, iluminados, coloridos, aromáticos; na velocidade do trem. Passavam pelas janelas, pela ansiedade dos dois; dos postes, das ruas, dos sonhos, das casas, das vidas, das vozes, do trem... Móbiles panorâmicos. Nada tinha porque parar. Os movimentos contínuos e frenéticos, de dentro e de fora para dentro do trem, revolviam pensamentos, ebuliam expectativas, passavam, passados. Tudo em antítese. Setas em porvir.

         O futuro acabara de chegar. Eis o castelo e suas torres bailando entre nuvens e névoa. Ruelas e escadas sinuosas a espera e a espreita dos dois. Já não havia pressa. O castelo estava ali, a um passo do movimento giratório dos portões. Agora, o castelo girava, girava, e girava cada vez mais veloz. E os dois, em órbita, felizes, sorridentes, crianças outra vez. Onde mais poderiam estar? Entre eles e o castelo, um carrossel. Entre o carrossel e eles, o futuro medieval.

        

www.macleim.com.br

 

Figura retirada do site: http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/10/tempo-2.jpg



Escrito por Sóstenes Lima às 09h40
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